terça-feira, julho 05, 2011

Compartilhando arquivos...

Viajando pela internet, achei uma ferramenta muito útil, para mim que tenho muita dificuldade em carregar arquivos aqui no blog!
Trata-se de uma espécie de "caixa" de arquivos pessoais... se alguém gostar, fica a dica!
Eu fiz a minha "box". Para acessar, entre em www.boxify.me/patygaier ! Lá, eu tenho algumas obras postadas e, cada vez que postar uma nova, aviso aqui no blog!


Literatura sul-rio-grandense

  Um breve comentário sobre um dos Quatro negros: Janéti

Patrícia Gaier Martins*

Neste texto, me proponho a tecer alguns comentários a respeito da novela Quatro negros, de Luis Augusto Fischer, publicada em 2005, dando ênfase à Janéti, a principal personagem da obra. Primeiramente, se faz importante apresentar um resumo da narrativa, para, depois, analisar o ponto a que me propus.
A obra trata-se de narrativa ficcional, em que o narrador conta, inspirado em pessoas que conhece e, portanto, reais, a história de quatro negros que têm experiências de vida em comum: se não por serem unidos pelo sangue ou pela cor, é por pertencerem ao mesmo espaço e condição social. Assim, o livro divide-se em cinco capítulos, em que os quatro primeiros mostram, nessa sequência, Janéti, Seu Sinhô, Jorge (Airton) e Rosi.
A narrativa se faz em linguagem coloquial, como se fosse uma conversa entre narrador e um suposto interlocutor. Comum em narrativas contemporâneas, o narrador é testemunha, não sendo onipresente ou onisciente, mas sim tendo uma visão limitada, em que narra a partir de sua subtração como narrador.
Fischer, ou melhor, o narrador, nos apresenta Janéti nas primeiras páginas do livro; menina, filha de pais negros e pobres, que mora na metade sul e interiorana do Rio Grande do Sul, reúne todos os seus irmãos, que já haviam sido adotados por outras famílias, para embarcar, junto com seus pais, em uma vida nova rumo à cidade grande.
            Na sequência, também conhecemos o negro Seu Sinhô, cujo apelido foi dado pelo seu avô, justamente por ser um questionador e, como diz o narrador, meio filósofo. E é com esse personagem que o narrador teve um tempo significativo de convivência, pois o velho passara alguns dias em sua casa, em Porto Alegre. Nesses dias, eles compartilham a sua cultura um com o outro: enquanto o narrador aprende que aricungo é o mesmo que berimbau, Seu Sinhô aprende que o fogão a gás não é como a chapa lá da sua casa: o a gás tem um fogo frio, fogo controlado, fogo da cidade, fogo meio sem caráter (FISCHER, 2005, p.59).
            A Janéti e o Seu Sinhô não têm relação nenhuma senão pela cor e pelo lugar de origem. Na verdade, eles nem se conheceram. Podemos dizer, então, que Fischer, na verdade, não só quer contar a história de quatro negros gaúchos, mas fazer uma relação com um fato histórico que é bastante tecido dentro da literatura gaúcha. Isso, porque a literatura sul-rio-grandense, desde o começo, sempre elege, por vias históricas, um dos dois fatos ocorridos no RS: ou a Revolução Farroupilha ou o processo imigratório. Neste caso, Fischer optou pelo último, uma vez que o primeiro tem como produção uma literatura mitificada, do monarca das coxilhas e, este outro, o gaúcho que encontra falta de oportunidades e pobreza na cidade grande. Mesmo assim, a pequena e improdutiva propriedade, aliada à falta de formação intelectual, são motivos suficientes para a família migrar do campo à cidade, levando a esperança e o amor incondicional na bagagem.
            Ainda em síntese da obra, temos os dois irmãos da Janéti nos capítulos três e quatro, respectivamente. O primeiro é o irmão mais velho, Airton, que Janéti, em seu intenso amor fraternal, o chama de Jorge. Este, não aceitando a vida miserável na cidade, com dezessete anos, sai de casa e vai em busca de um emprego com a esperança de uma vida melhor. De fato, logo começa a trabalhar, constrói sua família, mas, por circunstância de estar de vivo – e de ser negro, provavelmente – morre baleado. A última personagem negra que o narrador nos apresenta, e não menos importante, é a Rosa, sua empregada de muito tempo. Na visão dele, a Rosa é uma mulher feliz, que ri à toa, apesar de ser gorda, preta e desdentada. Acontece que essa mesma Rosa é a Rosi, a irmã mais nova, aquela única que iria embarcar com os pais, se não fosse o empenho da pequena Janéti em reunir toda a família.
            Os quatro negros – Janéti, Seu Sinhô, Jorge e Rosi - são infelizes e de vez em quando ficam felizes, como todo mundo (FISCHER, 2005, p 107). Isso, porque eles, cada um a sua maneira, transformam as adversidades da vida em motivação e esperança, seja com amor inexplicável, seja alcançando sabedoria, seja batalhando pelo sustento, seja rindo de tudo.
            Encerrando o resumo do livro, passo, agora, a comentar esta personagem que tanto encanta o narrador e, dependendo, o leitor. Escolhi Janéti não apenas por ser a figura principal da história, mas porque não poderia escolher outra. E, antes de tudo, faço referência às atribuições do próprio narrador, que, em sua visão, constrói essa mulher a partir do seu simples, mas inexplicável amor: mulher pobre, negra, gaúcha, morando lá naquele mundo (p.17); persistente, abnegada, amorosa, agregadora (p. 41); verdadeira mãe que não tem dezoito anos ainda (p. 95); a Janéti que sabe que a vida é estranha mas irrecusável (p.95); que queria todo mundo junto (p.97); que tem seu jeito de ser positivo e acolhedor, preciso e duro (p. 99).
Janeti, desde que foi largada na casa de uma “tia velha”, é determinada. Por mais de uma vez, os pais tentaram abandoná-la, mas ela insistia em voltar para casa. Então, desistiram da adoção, até porque, a guria já estava “crescida” mesmo e poderia ajudar no serviço da casa. Logo, tiveram mais filhos e, mesmo sendo todos dados para alguma família da vizinhança, Janéti dava nome a todos e amava cada um com aquele amor que a gente já conhece. Janete, era para ser. Mas, por escolha do pai semi-analfabeto, Janéti. Por escolha do autor, porque o nome traz informações prévias – pobre, interiorana, negra e rejeitada pelos pais. Apesar de tudo, a pequena Janéti abraça essa família como se os seus braçinhos pudessem alcançar a todos de uma só vez.
            No meio da narrativa, encontra-se Janéti já adulta, vencedora sobre as adversidades que encontrou, trabalhando, sustentando suas duas filhas e, ainda, seus pais. É nesse tempo da vida dessa mulher que o narrador a encontra em uma feira do livro, onde toma conhecimento dessa incrível história de amor e superação.
            E, para finalizar, cito o trecho da obra que Fischer escreve:
A vida é maior que a morte; a vida é uma doença letal e transmissível; a vida é essa maravilha irrecusável; a vida é a Janéti abrindo o coração para acolher mais gente ainda, porque sabe, sem palavras, que amor é simples mais, sempre cresce, não entra em conta de divisão, para quem ama tão do fundo de si. (FISCHER, 2005, p.85)

Referências bibliográficas

FISCHER, Luis Augusto. Quatro negros. Porto Alegre: L&PM, 2005.

SANTOS. Elaine dos. “Eles são gaúchos, negros e pobres: Quatro negros”. IN: Revista Urutágua. Nº 18. Paraná: 2009.

SANTOS, Elaine dos. “Literatura e sociedade: rompendo paradigmas – a resistência da mulher negra em uma sociedade branca, urbana e machista”. IN: Revista terra roxa e outras terras – Revista de Estudos Literários. Vol. 17-B. Londrina: 2009.


* Acadêmica do curso de Licenciatura em Letras Português e Literaturas da Língua Portuguesa da Universidade Federal de Santa Maria.

terça-feira, junho 14, 2011

Blackout = Blecaute, segundo Raul Carrion

O estrangeirismo na formação do léxico

Patrícia Gaier Martins

O projeto de lei do deputado estadual Raul Carrion contra estrangeirismos tem causado polêmica no Rio Grande do Sul – e não é para menos. A Assembléia gaúcha aprovou, por 26 a 24 votos, um projeto que proíbe o uso de palavras estrangeiras – inglesas, melhor dizendo – em documentos oficiais, propagandas e na mídia sem o acompanhamento de uma tradução, quando houver equivalente em língua portuguesa.

A intenção do deputado é bem clara: preservar a língua portuguesa no Brasil, para que a identidade da língua nacional deixe de ser influenciada pela “gringa” – posição bem comum, considerando que é um conservador, para não dizer comunista. A mesma medida foi tomada, alguns anos atrás, pelo deputado Aldo Rebelo, também do PCdoB. O governador Tarso Genro (PT), antes de vetar o projeto, antecipou que iria apresentar uma nova proposta de “valorização da língua portuguesa”.

Diante disso, podemos levantar a seguinte questão: qual a concepção de língua do deputado Carrion para argumentar tal lei? Em uma entrevista ao site – quero dizer, sítio – Terra, ele argumenta que o português apresenta mais de 400 mil palavras em seu léxico e que usar as estrangeiras no lugar das portuguesas é pura ignorância, coisa de papagaio, diz ele. Ainda nos mostra o exemplo das palavras “light” e “diet”, as quais brasileiros encontram dificuldade em saber qual o significado de cada uma. Todavia, Raul se contradiz dizendo que “blecaute” é uma palavra que veio do estrangeiro – blackout –, mas, sendo aportuguesada, pode ser usada sem risco nenhum, ou seja, importa mesmo é a forma como escrever a palavra e não o que significa, porque que diferença tem blecaute e blackout se o cidadão não sabe o significado de nenhuma? Há de se concordar que o deputado tem uma concepção de língua muito limitada, logo não caberia a ele discutir uma lei tão rigorosa e delicada ao mesmo tempo.

Um estudioso da língua, ou melhor, um linguista, resolveria esse impasse rapidamente. A primeira coisa a se dizer é que uma língua nunca é pura. O contato constante entre línguas é próprio da história das línguas. Assim, ela não é estática, pois, se está em uso, comprova que é língua viva e sofre constantes processos. O mesmo não se pode falar de uma língua morta, que não está sendo usada e serve somente para estudo – o latim clássico é um exemplo. Nas próprias gramáticas da língua portuguesa, estão registrados os processos de formação das palavras e, entre eles, há um específico que trata do estrangeirismo, provando que é inevitável a adoção de palavras que vêm de fora no português.

Para o defensor ferrenho da língua nacional, a primeira questão a que ele deveria se voltar é a história da formação do léxico brasileiro, já que, em entrevista ao Terra, afirma ser um grande entendedor de história. A começar pelo século XVI, na própria colonização do Brasil, em que se verifica uma mistura da língua indígena, a tupi, com o português, de Portugal. Sem tardar, o Brasil tratou de elaborar dicionários introduzindo os brasileirismos, fruto do contato dessas duas línguas. Até hoje, temos inúmeros exemplos, principalmente nomes de animais e plantas.

O próprio português vem do latim. Se, agora, tivéssemos que retirar todas as palavras formais usadas em um tribunal, por exemplo, o que faríamos com habeas corpus, que, no latim, significa “tenha seu corpo”? Acredito que o deputado Raul Carrion, ao elaborar e pensar sobre esse projeto, se preocupou muito mais com casos específicos do estrangeirismo, e não com o todo. Ele argumenta bastante em relação às expressões do dia-a-dia como happy hour, download, blackout – expressões, estas, que só têm sentido na cultura norte americana e que perdem o significado primeiro se traduzidas - e a diferença entre light e diet, as quais não são usadas (creio eu) em documentos e enunciados formais, a não ser a especificação de açúcar e nutrientes em produtos alimentares. No cotidiano, é bem natural que usemos palavras estrangeiras por economia – imagine dizer “baixar arquivo da página virtual” ao invés de download da internet ou, ainda, “hora feliz após o trabalho” em troca de happy hour –, até porque, existem expressões que não há como traduzi-las “ao pé da letra”, é preciso usar, às vezes, duas ou três palavras para expressar apenas uma. Da mesma forma que a língua incorpora novas palavras, também faz cortes no vocabulário por não serem necessárias.

Para finalizar, cito a opinião de Fernando Veríssimo, registrada por Claudio Leal, do Terra: “A única maneira de defender a língua portuguesa dos estrangeirismos é confiar que as pessoas, eventualmente, se dêem conta do ridículo.” Assim, é sempre bom saber como e quando usar o estrangeirismo, para não passar por ignorante.