terça-feira, julho 05, 2011
Literatura sul-rio-grandense
terça-feira, junho 14, 2011
Blackout = Blecaute, segundo Raul Carrion
O estrangeirismo na formação do léxico
Patrícia Gaier Martins
O projeto de lei do deputado estadual Raul Carrion contra estrangeirismos tem causado polêmica no Rio Grande do Sul – e não é para menos. A Assembléia gaúcha aprovou, por 26 a 24 votos, um projeto que proíbe o uso de palavras estrangeiras – inglesas, melhor dizendo – em documentos oficiais, propagandas e na mídia sem o acompanhamento de uma tradução, quando houver equivalente em língua portuguesa.
A intenção do deputado é bem clara: preservar a língua portuguesa no Brasil, para que a identidade da língua nacional deixe de ser influenciada pela “gringa” – posição bem comum, considerando que é um conservador, para não dizer comunista. A mesma medida foi tomada, alguns anos atrás, pelo deputado Aldo Rebelo, também do PCdoB. O governador Tarso Genro (PT), antes de vetar o projeto, antecipou que iria apresentar uma nova proposta de “valorização da língua portuguesa”.
Diante disso, podemos levantar a seguinte questão: qual a concepção de língua do deputado Carrion para argumentar tal lei? Em uma entrevista ao site – quero dizer, sítio – Terra, ele argumenta que o português apresenta mais de 400 mil palavras em seu léxico e que usar as estrangeiras no lugar das portuguesas é pura ignorância, coisa de papagaio, diz ele. Ainda nos mostra o exemplo das palavras “light” e “diet”, as quais brasileiros encontram dificuldade em saber qual o significado de cada uma. Todavia, Raul se contradiz dizendo que “blecaute” é uma palavra que veio do estrangeiro – blackout –, mas, sendo aportuguesada, pode ser usada sem risco nenhum, ou seja, importa mesmo é a forma como escrever a palavra e não o que significa, porque que diferença tem blecaute e blackout se o cidadão não sabe o significado de nenhuma? Há de se concordar que o deputado tem uma concepção de língua muito limitada, logo não caberia a ele discutir uma lei tão rigorosa e delicada ao mesmo tempo.
Um estudioso da língua, ou melhor, um linguista, resolveria esse impasse rapidamente. A primeira coisa a se dizer é que uma língua nunca é pura. O contato constante entre línguas é próprio da história das línguas. Assim, ela não é estática, pois, se está em uso, comprova que é língua viva e sofre constantes processos. O mesmo não se pode falar de uma língua morta, que não está sendo usada e serve somente para estudo – o latim clássico é um exemplo. Nas próprias gramáticas da língua portuguesa, estão registrados os processos de formação das palavras e, entre eles, há um específico que trata do estrangeirismo, provando que é inevitável a adoção de palavras que vêm de fora no português.
Para o defensor ferrenho da língua nacional, a primeira questão a que ele deveria se voltar é a história da formação do léxico brasileiro, já que, em entrevista ao Terra, afirma ser um grande entendedor de história. A começar pelo século XVI, na própria colonização do Brasil, em que se verifica uma mistura da língua indígena, a tupi, com o português, de Portugal. Sem tardar, o Brasil tratou de elaborar dicionários introduzindo os brasileirismos, fruto do contato dessas duas línguas. Até hoje, temos inúmeros exemplos, principalmente nomes de animais e plantas.
O próprio português vem do latim. Se, agora, tivéssemos que retirar todas as palavras formais usadas em um tribunal, por exemplo, o que faríamos com habeas corpus, que, no latim, significa “tenha seu corpo”? Acredito que o deputado Raul Carrion, ao elaborar e pensar sobre esse projeto, se preocupou muito mais com casos específicos do estrangeirismo, e não com o todo. Ele argumenta bastante em relação às expressões do dia-a-dia como happy hour, download, blackout – expressões, estas, que só têm sentido na cultura norte americana e que perdem o significado primeiro se traduzidas - e a diferença entre light e diet, as quais não são usadas (creio eu) em documentos e enunciados formais, a não ser a especificação de açúcar e nutrientes em produtos alimentares. No cotidiano, é bem natural que usemos palavras estrangeiras por economia – imagine dizer “baixar arquivo da página virtual” ao invés de download da internet ou, ainda, “hora feliz após o trabalho” em troca de happy hour –, até porque, existem expressões que não há como traduzi-las “ao pé da letra”, é preciso usar, às vezes, duas ou três palavras para expressar apenas uma. Da mesma forma que a língua incorpora novas palavras, também faz cortes no vocabulário por não serem necessárias.
Para finalizar, cito a opinião de Fernando Veríssimo, registrada por Claudio Leal, do Terra: “A única maneira de defender a língua portuguesa dos estrangeirismos é confiar que as pessoas, eventualmente, se dêem conta do ridículo.” Assim, é sempre bom saber como e quando usar o estrangeirismo, para não passar por ignorante.
sábado, maio 07, 2011
Autor e obra: Moacyr Scliar - Parte 1

Moacyr Scliar, nascido em 23 de março de 1937, em Porto Alegre (RS), faleceu dia 27 de fevereiro deste ano. Formou-se, em 1963, em medicina pela Universidade Federal do RS. Antes de se formar, em 1962, publicou seu primeiro livro, intitulado "História de um médico em formação". A partir daí, não parou mais. Recebeu inúmeras premiações pelos seus mais de 67 títulos, abrangendo romance, conto, literatura infantil e ensaios.
Sua obra é marcada pelo imaginário fantástico e a tradição judaica (Um centauro no jardim gosto muito e é exemplo dessa temática). Também, nos seus ensaios, ele concilia a medicina com a literatura e o judaísmo e, são exemplos, A paixão transformada: história da medicina na literatura. São Paulo, Companhia das Letras, 1996 e Meu filho, o doutor: medicina e judaísmo na história, na literatura e no humor. Porto Alegre, Artes Médicas, 2000.Muitas de suas obras foram publicadas em mais de 13 países.
Quanto à sua vida pessoal, casou-se com Judith Vivien Oliven, em 1965, e teve seu filho Roberto em 1979. Continou seus estudos de medicina em Israel, em 1970. Já na sua carreira de escritor, recebeu alguns convites para ser professor visitante em algumas universidades dos EUA, como a Universidade do Texas, em Austin. Contribuiu muito para os jornais Folha de São Paulo e Zero Hora e alguns de seus textos foram adaptados para o cinema, teatro e tevê.
Em 22 de outubro de 2003, foi recebido pelo poeta gaúcho, Carlos Nejar, para tomar posse da cadeira nº31 na Academia Brasileira de Letras, ocupada, até então, por Geraldo França de Lima.
Para saber um pouco mais sobre sua bibliografia, clique aqui.
No próximo post, vou falar um pouco mais sobre a obra Um centauro no jardim e a sua literatura fantástica, abordando um pouco os preceitos do teórico Tzvetan Todorov.